Jóquei


Foi um amor à primeira palavra. Estava na Flip, em 2015, vendo a última do mesa do e vento, a de Cabeceira, quando Matilde leu um poema. Eu infelizmente não vou lembrar qual, mas vou deixar no final um outro que ela leu em uma outra mesa. Foi um amor. Acho que fiquei de boca aberta e escorreu um fio de baba enquanto a ouvia e a via ler. Era tão envolvente. Foi impossível não mergulhar na leitura junto com ela. E olha que eu tenho muita dificuldade de prestar atenção em pessoas lendo. Depois disso saí da cadeira de plástico direto para livraria para comprar Jóquei, seu primeiro livro.

Quem entende de poesia diz que o livro não tem nada de mais. Mas ali em encontrei todo o sentimento que percebi na leitura de Campilho. A mesma intensidade, a mesma suavidade, a mesma sonoridade do seu sotaque português. ❤ Faz tempo que li esse livro, porém, ao ver uma entrevista da autora na internet, resolvi reler meus trechos favoritos que estão grifados:

“A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos atravessando tudo”

“No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará”

“Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho”

Há muitos outros grifados e poemas inteiros marcados. Mas, nesse momento, senti vontade de destacar esses. Matilde tem um olhar atendo e doce para o cotidiano. Sua escrita é fluida e segue como um bate-papo. Não faz uso de muitos recursos estilisticos para engrandecer sua poesia. É como aquele bom café coado servido em copo americano. É simples, é bom e esquenta o coração. 

xxi poetas de hoje em dia(nte)


capa_divulgacaoPoesia não é muito meu forte. Mas no passado já gostei muito – exceto das que falavam de amor. Quem me fez gostar de poesia foi Manuel Bandeira com sua Poética, a qual decorei, declamei e tatuaria o verso “não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.

Mas deixando o meu eu-lírico de lado, venho falar do eu-lírico da minha companheira de trabalho Ju Alquéres, cujo lado poeta atende pelo nome de Julia Almeida (piada interna). Dia 23 foi o lançamento da antologia XXI Poetas de hoje em dia(nte), na qual há alguns poemas da Ju – os mais interessantes diga-se de passagem.

Os poemas de Julia Almeida são como uma tatuagem: doem, rasgam, marcam e no fim, quando você acaba de ler, nota como é bonito. Julia gosta do tema dor, apesar de odiar senti-la. Por isso seus poemas tocam, tatuam. Porque ela machuca/tatua a folha de papel branco com as palavras diminuir aquela que é inevitável.

É fato: na dedicatória que Ju escreveu para mim, ela disse: “K., muito obrigada por ter vindo. É  bom ter você por peto. Espero que goste dos poemas e entre nesse mundo novo, um pouquinho diferente das artes plásticas!”. Será mesmo diferente? Olha só como esse poema da Ju é arte:

Esteia

Apota-dor
a agulha afiada espirra aquarelas
em meus glóbolos brancos

Dentrode mim
xilogravuras japonesas
pois eu sou de carne e madeira.

:: XXI Poetas de hoje em dia(nte): Aline Gallina e Priscila Lopes (org). Letras Contemporanea. Brasil, 2009. 157 págs.R$ 29.