pequena prece ao senhor do bonfim


Já disse aqui em outros post que sou uma foliã de carteirinha. Quando pequena, meus pais me levavam às matinês dos bailes de Carnaval para eu soltar minhas serpentinas, jogar confetes e pular bastante. Depois que eu cresci (ok, cheguei apenas a 1,60), comecei a ir sozinha aos bloquinhos de rua de São Paulo e também à quadra da minha escola de coração, a Rosas de Ouro. Mas nesse ano, assim como a Luisa Marilac, eu resolvi fazer algo diferente. Fui à Marques de Sapucaí, no Rio de Janeiro, desfilar pela Portela.

Sempre tive vontade de desfilar, mas nunca pensei que iria até à terra do Cartola para isso. Mas aí, o mundo dá voltas, e você acaba namorando um portelense (apesar de paulistano) que sofreu uma maldição quando nasceu. O Fábio tem 28 anos e, há 28 anos, a Portela não ganha um desfile. Então, no ano passado, decidimos quebrar esse feitiço e começamos a nos organizar para fazer a nossa estreia na passarela do Samba. Pelo croqui, eu escolhi a fantasia que parecia a mais leve. PARECIA. Quando nos enviaram as fotos, eu já comecei a imaginar o perrengue que iríamos enfrentar. Mas, enquanto as fantasias não chegavam, tentávamos decorar o samba.

O samba desse ano da Portela era cotado com um dos melhores de todos os tempos. E, de fato, era uma delícia. Não precisamos ouvir muitas vezes para decorar. Mas ouvimos muitas vezes por gostar dele de verdade. Tirando o verso:   “Vou no gongá/ Bater tambor/ Rezo no altar/ Levo o andor”, decorei de primeira. Caminhando pelas ruas do Rio, o samba era praticamente hit do Carnaval. Tocava em todas as lojas – morra de inveja, Michel Teló. Os elogios à música só aumentava a nossa expectativa. “Vamos ser campeões”, era a nossa certeza.

Chegaram as fantasias. Nada levinha como parecia. Trambolho é a palavra mais adequada que encontro para definir. O costeiro era até tranquilo. Na cabeça, porém, tínhamos de levar um tambor com canecalon. Juro, nem se eu me esforçasse muito, conseguiria vestir algo tão ridículo. Mas vamos lá: é Carnaval, é Portela, é Campeão! Nos vestimos e partimos para a concentração. Marinheiros de primeira viagem, eu e o Fábio ficamos as duas horas de concentração vestidinhos com a fantasia completa. Resultado: faltando dez minutos para entrar na avenida, estávamos esgotados. Tudo doía.

O cansaço estava me nocauteando quando anunciaram que íamos entrar e começaram a nos posicionar nos nossos devidos lugares. A cuíca gritou, o surdo ritmou, a bateria esquentou e o puxador evocou: Canta, canta, canta, minha Portela. Como Roque Balboa, me levantei do chão e começei a pular e parti pra cima e pra vencer. O cansaço, as dores, o mau-humor… tudo vai embora pra dar lugar à alegria. É mágico ver a galera na arquibancada cantando com você, te animando, puxando a escola. É exatamente como diz a letra do samba: “Cheguei, eu cheguei pra festejar”.

Pulando e cantando, você atravessa os 700 metros da Sapucaí e nem sente. Mentira, você sente, sim! Quando você vê que tá acabando, dá uma alegria danada só em pensar que falta pouco pra tirar treco da cabeça e o costeiro. Mas, ao mesmo tempo, ainda sabendo que desfilar dá uma baita canseira, bate uma vontade enorme de voltar para o começo da avenida e começar tudo de novo.

Abre alas, o olodum chegou

É arte: Como não falar desse samba lindo? Pra não repetir, é arte ver a alegria que invade todo mundo naquele momento tão único, em que deixamos de ser um pra ser uma Escola inteira na avenida.

É fato: O Fábio não conseguiu quebrar o feitiço. A Portela não foi campeã e ficou em sexto lugar. Mesmo fazendo um desfile lindo é difícil para uma Escola de poucos recursos, apesar de muito tradicional, vencer o espetáculo de Paulo Barros com a Unidos da Tijuca.

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5x favela – agora por nós mesmos


Confesso que tenho um certo bode de filme de favela. O tema/cenário já foi tão explorado pelo cinema, televisão e outras mídias que, só de pensar em mais uma história de mocinhos e bandidos, me dá preguiça. 5x favela, no entanto, foge do clichê. É feito por quem entende do assunto: os moradores da comunidade. Por isso o subtítulo “Agora por nós mesmos”.  As cinco histórias foram escritas, produzidas, atuadas e dirigidas por pessoas que participaram de oficinas de cinema coordenada por Cacá Diegues e Renata de Almeida Magalhães em várias comunidades.

O filme tem o cheiro, a cor, o som dos morros. (Como comentei com o Fábio, que se diz apaixonado pelo Rio de Janeiro, mas, na verdade, só gosta do Leblon: “Eis o verdadeiro o Rio”.) Aquelas são as pessoas que fazem a cidade – que alguns insistem em chamar de maravilhosa –; que têm a ginga do Carnaval; que sofrem; que riem; que lutam para sobreviver, para comprar a comprar a mistura porque já estão cansadas de comer apenas arroz e feijão; que fazem parte da torcida do Flamengo; que não perdem o bom-humor; que se solidarizam nos momentos difíceis; que vivem de fato em comunidade.

Pensando nesse Rio, eu até me simpatizo pela capital carioca. Entretanto, sou paulistana demais para assumir isso. 😉

:: É arte: todas as cinco histórias são ótimas, mas Arroz com feijão é, para mim, a melhor. O ator mirim Pablo Vinícius (Orelha) dá um show de interpretação. Com certeza, se quiser e tiver oportunidade, poderá ir muito longe.

:: É fato: Talvez esse fosse o filme que deveria tentar uma vaga no Oscar. Mas preferiram mandar uma película cheia de clichês e características de novela das oito. Olha, eu adoro novela, mas nunca vi uma ganhar a estatueta dourada.

:: 5x favela – Agora por nós mesmos: Dir. coletiva. Brasil 2010. 96 minutos